Quadro do Inferno Cristão - O Céu e o Inferno. Cap. 4. Item 13

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O INFERNO POR AUGUSTE CALLET:

O livro O Inferno, por Auguste Callet é uma análise crítica e filosófica sobre o conceito do inferno, especialmente na tradição cristã. A obra discute as origens, dogmas e tradições relacionadas ao inferno, questionando a lógica e a moralidade das penas eternas e abordando temas como a rebelião de Satanás, o castigo, o paraíso e a maldição dos homens. Callet examina como essas ideias influenciaram a teologia e a sociedade, propondo uma reflexão profunda sobre o significado e as consequências dessas crenças.

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— O Céu e o Inferno. Cap. 4. Item 13

O autor faz após este quadro as seguintes reflexões, cujo alcance todos compreenderão: (O Inferno, por Auguste Callet.)

“A ressurreição dos corpos é um milagre; mas é preciso um segundo milagre para dar a esses corpos mortais, já gastos uma vez pelas passageiras provas da vida, aniquilados já uma vez, a virtude de subsistir, sem se dissolverem, numa fornalha onde os metais se evaporariam.

Que se diga que a alma é seu próprio carrasco, que Deus não a persegue, mas que ele a abandona no estado desventurado que ela escolheu, isso pode compreender-se com todo o rigor, embora o abandono eterno de um ser perdido e sofredor pareça pouco conforme à bondade do Criador; mas o que se diz da alma e das penas espirituais, não se pode, de maneira nenhuma, dizer dos corpos e das penas corporais; para perpetuar essas penas corporais, não basta que Deus retire sua mão, é preciso, ao contrário, que ele a mostre, que intervenha, que aja, sem o que o corpo sucumbiria.”


Em outras palavras:

  • Primeiro milagre: Ressuscitar um corpo;
  • Segundo milagre: Tornar um corpo indestrutível para sofrer eternamente;
  • Deus não castiga diretamente, mas permite consequências eternas;
  • Diferenciação: Sofrimento da alma x Sofrimento do corpo físico;
  • O corpo não sobreviveria no inferno;
  • Deus como agente direto da tortura (sustentando o corpo no sofrimento).


“Os teólogos supõem, portanto, que Deus opera efetivamente, após a ressurreição, esse segundo milagre de que falamos. Ele tira primeiro, do sepulcro que os devorara, nossos corpos de argila; retira-os tal como aí entraram, com suas enfermidades originais e as degradações sucessivas da idade, da doença e do vício; ele devolve-os a nós nesse estado, decrépitos, friorentos, gotosos, cheios de necessidades, sensíveis a uma picada de abelha, todos cobertos dos estigmas que a vida e a morte aí imprimiram, e é esse o primeiro milagre; depois, a esses corpos débeis, prontos a retornar ao pó do qual saem, ele inflige uma propriedade que eles nunca tiveram, e eis o segundo milagre; ele lhes inflige a imortalidade, esse mesmo dom que, na sua cólera, dizei antes na sua misericórdia, ele retirara de Adão à saída do Éden. Quando Adão era imortal, era invulnerável, e quando cessou de ser invulnerável, tornou-se mortal; a morte seguiu de perto a dor.”

“A ressurreição não nos restabelece, portanto, nem nas condições físicas do homem inocente, nem nas condições físicas do homem culpado; é somente uma ressurreição de nossas misérias, mas com uma sobrecarga de misérias novas, infinitamente mais horríveis; é, em parte, uma verdadeira criação, e a mais maliciosa que a imaginação tenha ousado conceber.

Deus muda de ideia, e para juntar aos tormentos espirituais tormentos carnais que possam durar para sempre, ele muda bruscamente, por um efeito de seu poder, as leis e as propriedades por ele mesmo atribuídas, desde o começo, aos compostos da matéria; ressuscita carnes doentes e corrompidas, e amarrando com um nó indestrutível esses elementos que tendem a se separar por si mesmos, ele mantém e perpetua, contra a ordem natural, essa podridão viva; ele joga-a no fogo, não para purificá-la, mas para conservá-la tal qual ela é, sensível, sofredora, ardente, horrível, tal qual ele a quer, imortal.”



Em outras palavras:

  • A ressurreição não devolve o ser humano a um estado melhor;
  • Seria uma “nova criação” ;
  • Contrariando suas próprias leis;
  • Corpos “vivos” em estado de degradação, jogados ao fogo;
  • Objetivo de continuo sofrimento e não o de purificação;
  • Ideia distante de aprendizado e esperança.


“Faz-se de Deus, por esse milagre, um dos carrascos do inferno, pois se os condenados não podem imputar senão a si mesmos seus males espirituais, podem, em contrapartida, atribuir os outros a Ele.

Era demasiado pouco, aparentemente, abandoná-los após a morte à tristeza, ao arrependimento e a todas as angústias de uma alma que sente que perdeu o bem supremo; Deus irá, segundo os teólogos, buscá-los nessa noite, no fundo do abismo; ele os trará um momento à luz, não para consolá-los, mas para revesti-los de um corpo hediondo, flamejante, imperecível, mais contaminado do que a túnica de Dejanira, e só então ele os abandona para sempre.”


Em outras palavras:

  • Sofrimentos da alma, como culpa do próprio espírito;
  • Sofrimentos do corpo, obra direra de deus;
  • O autor ironiza o buscar de deus no fundo do abismo;
  • Abandono definitivo de deus.


“Ele nem mesmo os abandona, visto que o inferno só subsiste, assim como a terra e o céu, por um ato permanente da sua vontade, sempre ativa, e tudo se desfaria se ele cessasse de sustentá-lo. Ele manterá então incessantemente a mão sobre eles para impedir seu fogo de se extinguir e seus corpos de se consumir, querendo que esses desgraçados imortais contribuam, pela perenidade de seu suplício, para a edificação dos eleitos.”


Em outras palavras:

  • O inferno, o céu e a terra só existem porque deus sustenta o tempo todo;
  • Se deus parasse de agir, tudo deixaria de existir;
  • Esse sofrimento eterno vira uma espécie de lição pelo medo.


— RESSUREIÇÃO PELA VISÃO ESPÍRITA:


QUESTÃO 1010:  O dogma da ressurreição da carne será a consagração da reencarnação ensinada pelos Espíritos?

“Como quereríeis que fosse de outro modo? Conforme sucede com tantas outras, estas palavras só parecem despropositadas, no entender de algumas pessoas, porque as tomaram ao pé da letra. Levam, por isso, à incredulidade. Dai-lhes uma interpretação lógica e os que chamais livres pensadores as admitirão sem dificuldades, precisamente pela razão de que refletem. Porque, não vos enganeis, esses livres pensadores o que mais pedem e desejam é crer. Têm, como os outros, ou, talvez, mais que os outros, a sede do futuro, mas não podem admitir o que a ciência desmente. A doutrina da pluralidade das existências é consentânea com a justiça de Deus; ela, sozinha, explica o que, sem ela, é inexplicável. Como havíeis de pretender que o seu princípio não estivesse na própria religião?”


QUESTÃO 1010 a: Assim, pelo dogma da ressurreição da carne a própria Igreja ensina a doutrina da reencarnação?

  • O espiritismo não veio destruir a religião, ao contrário: confirma e esclarece;
  • As explicações eram mais simbólicas ou confusas (linguagem figurada). Hoje é necessário linguagem clara e direta, sem alegorias;
  • A ciência esclarece que a ressurreição do corpo é impossível;
  • Esclarece o juízo final;
  • Ideia espírita (pluralidade dos mundos) X Ideia tradicional (Só a terra é habitada.



Deus não cria o sofrimento eterno, mas oferece a cada espírito o tempo e as experiências necessárias para aprender, reparar e evoluir.


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