Inferno cristão imitado do inferno pagão - Part. 2
Notemos ainda sobre este assunto outra analogia. O inferno dos pagãos encerrava de um lado os Campos Elíseos e do outro o Tártaro; o Olimpo, morada dos deuses e dos homens divinizados, ficava nas regiões superiores. Segundo a carta do Evangelho, Jesus desceu aos infernos, ou seja, aos lugares baixos, para daí tirar as almas dos justos que aguardavam sua vinda. Os infernos não eram, então, unicamente um lugar de suplício; como entre os pagãos, eles estavam também nos lugares baixos. Assim como o Olimpo, a morada dos anjos e dos santos era nos lugares elevados; colocaram-no além do céu das estrelas que se acreditava limitado.
Esta mistura das ideias pagãs e das ideias cristãs nada tem que deva surpreender. Jesus não podia subitamente destruir crenças enraizadas; faltavam aos homens os conhecimentos necessários para conceber o infinito do espaço e o número infinito dos mundos; a Terra era para eles o centro do universo; não lhe conheciam nem a forma nem a estrutura interna; tudo era para eles limitado a seu ponto de vista: suas noções do futuro não se podiam estender além de seus conhecimentos. Jesus achava-se então na impossibilidade de iniciá-los no verdadeiro estado das coisas; mas, por outro lado, não querendo sancionar por sua autoridade os preconceitos vigentes, ele se absteve, deixando ao tempo o cuidado de retificar as ideias. Limitou-se a falar vagamente da vida bem-aventurada e dos castigos que aguardam os culpados, mas em nenhum lugar, em seus ensinamentos, se encontra o quadro dos suplícios corporais dos quais os cristãos fizeram um artigo de fé.
Eis como as ideias do inferno pagão se perpetuaram até os nossos dias. Foi precisa a difusão das luzes nos tempos modernos, e o desenvolvimento geral da inteligência humana para lhes fazer justiça. Mas então, como nada de positivo substituía as ideias preconcebidas, ao longo período de uma crença cega sucedeu, como transição, o período de incredulidade, ao qual a nova revelação vem pôr um termo. Era preciso demolir antes de reconstruir, pois é mais fácil fazer aceitar ideias justas àqueles que não creem em nada, porque eles sentem que lhes falta algo, do que aos que têm uma fé robusta no que é absurdo.
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