Inferno cristão imitado do inferno pagão - Part. 1

O inferno dos pagãos como modelo


O inferno dos pagãos, descrito e dramatizado pelos poetas, foi o modelo mais grandioso do gênero; perpetuou-se no dos cristãos, o qual teve, também, seus panegiristas poéticos. Comparando-os, encontram-se neles, exceto os nomes e algumas variantes nos detalhes, inúmeras analogias; num e noutro, o fogo material é a base dos tormentos, porque é o símbolo dos mais cruéis sofrimentos.

Mas, coisa estranha, os cristãos, em muitos pontos, exageraram o inferno dos pagãos! Se estes últimos tinham no deles o tonel das Danaides, a roda de Íxion, o rochedo de Sísifo, eram suplícios individuais; o inferno cristão tem para todos caldeiras borbulhantes cujas tampas os anjos levantam para ver as contorções dos condenados às penas eternas; Deus ouve sem compaixão os gemidos destes durante a eternidade.

Tonel das Danaídes

Roda de Íxion

Rochedo de Sísifo

São Tomás de Aquino

Os bem-aventurados, sem sair do lugar que ocupam, sairão, entretanto, de uma certa maneira, em razão de seus dons de inteligência e de suas visões distintas, a fim de considerar as torturas dos danados; e, vendo-os, não somente não sentirão nenhuma dor, mas estarão cumulados de alegria, e renderão graças a Deus pela própria felicidade, assistindo à inefável calamidade dos ímpios.


Plutão versus Satã

Plutão:
Como os pagãos, os cristãos têm seu rei dos infernos que é Satã, com a diferença de que Plutão se limitava a governar o sombrio império que lhe tocara na partilha, mas não era malvado; retinha em sua casa aqueles que haviam cometido o mal, porque essa era sua missão, mas não procurava induzir os homens ao mal para ter o prazer de fazê-los sofrer.



Satã:
Ao passo que Satã recruta em toda a parte vítimas que se comprazem em ser atormentadas pelas suas legiões de demônios armados de forcados para as agitar no fogo. Discutiu-se mesmo seriamente sobre a natureza desse fogo que queima incessantemente os condenados sem jamais os consumir; perguntou-se se era um fogo de betume.


O inferno cristão não fica, portanto, a dever nada ao inferno pagão.

Livro dos Espíritos

966. Por que das penas e gozos da vida futura faz o homem, muitas vezes, tão grosseira e absurda ideia?

“Inteligência que ainda não se desenvolveu suficientemente. Compreende a criança as coisas como o adulto? Isso, além disso, depende também do que se lhe ensinou: aí é que há necessidade de uma reforma."

“Muito incompleta é a vossa linguagem para exprimir o que está fora de vós. Teve-se então que recorrer a comparações e tomaste como realidade as imagens e figuras que serviram para essas comparações. À medida, porém, que o homem se instrui, melhor vai compreendendo o que a sua linguagem não pode exprimir.”


974. De onde procede a doutrina do fogo eterno?

“Imagem tomada como realidade, como tantas outras.”

a) — Mas o temor desse fogo não produzirá bom resultado?

“Vede se serve de freio, mesmo entre os que o ensinam. Se ensinardes coisas que mais tarde a razão repila, causareis uma impressão que não será duradoura, nem salutar.”

Impotente para, na sua linguagem, definir a natureza daqueles sofrimentos, o homem não encontrou comparação mais enérgica do que a do fogo, pois, para ele, o fogo é o tipo do mais cruel suplício e o símbolo da ação mais vigorosa. Por isso é que a crença no fogo eterno data da mais remota antiguidade, tendo-a os povos modernos herdado dos mais antigos. Por isso também é que o homem diz, em sua linguagem figurada: o fogo das paixões; abrasar de amor, de ciúme, etc.


1013 [1012]. O que se deve entender por purgatório?

“Dores físicas e morais: o tempo da expiação. Quase sempre, na Terra é que fazeis o vosso purgatório e que Deus vos obriga a expiar as vossas faltas.”

O que o homem chama de purgatório é igualmente uma alegoria, devendo-se entender como tal, não um lugar determinado, porém o estado dos Espíritos imperfeitos que se acham em expiação até alcançarem a purificação completa, que os levará à categoria dos Espíritos bem-aventurados. Operando-se essa purificação por meio das diversas encarnações, o purgatório consiste nas provas da vida corporal.

Conclusão

Kardec conclui que o inferno cristão não fica a dever nada ao pagão — na verdade, em crueldade e absurdos, supera-o. Essa visão contradiz a justiça e bondade de Deus, sendo apenas uma herança mitológica e cultural que o Espiritismo corrige: as verdadeiras "penas" são temporárias, proporcionais, educativas e baseadas no remorso interno, nunca eternas ou vingativas. Em resumo: o inferno tradicional é uma invenção humana exagerada, não uma revelação divina. O Espiritismo traz alívio ao mostrar uma justiça amorosa e evolutiva.


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Estudo baseado no livro: O Céu e o Inferno ou a Justiça Divina Segundo o Espiritismo, cap. IV — O inferno
Tema: Inferno cristão imitado do inferno pagão.
Itens: 3 e 4.

Livro de apoio ao conteúdo: O Livro dos Espíritos.
Como também, pesquisas relacionadas ao tema.

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